14 fevereiro 2013

Instinto


Na foto, a jovem psicóloga Luana Pontes, que foi minha aluna e é um claríssimo e inquestionável exemplo de como a beleza atua ao lado dos instintos para criar o gosto humano pela eternidade.

Há em tudo que respira um instinto de autopreservação. O melhor e o pior deste mundo querem viver – e contam com seus instintos para o êxito dessa permanente e sempre difícil tarefa.

Proteger-se depende muitas vezes de mentir ou dissimular. Em nome da preservação da vida, muitos aceitam o inaceitável e apelam ao inapelável. Em algum momento da já extensa luta pela sobrevivência, a vida criou outros mundos para justificar o mal que praticamos contra este mundo e todos os seus habitantes, em diferentes tempos e nos mais inóspitos lugares.

O instinto, contudo, opera nos níveis básicos da vida. Ele nos incita à proteção contra o frio e o calor; nos diz a hora de beber e comer; nos convida a parar, descansar e dormir. O instinto, que é animal e pouco racional, por isso se faz tão natural, alerta acerca de perigos e emboscadas; premia com alívio e sensação de ter renascido aqueles que o levam a sério – nessas horas, o velho instinto muda de nome e passa a ser chamado de pressentimento.

Envolvido pela cultura, o instinto se desanimaliza e flerta com o pensamento racional. Instinto e cultura formam o perfeito par da melhor definição daquilo que consideramos humano. Muito mais do que a sobrevivência física, o humano instinto deseja a integridade moral. Para tanto, ele nos ensina sobre os riscos de ultrapassar limites, desrespeitar convenções, desconsiderar ou desprestigiar linguagens, conceitos e instituições.  Nesses termos, a cultura não quer um instinto livre: toda liberdade é uma perturbadora ameaça aos cárceres culturais.

A família infeliz, o emprego sufocante, os estudos forçados, o dinheiro proclamado como exigência da felicidade, tudo isso seria facilmente destruído pelo instinto em seu estado animal e, portanto, natural. Os grilhões da cultura, que juram agir em nome da preservação de toda a espécie, neutralizam o gosto pela abusada condição libertária dos instintos - e, então, castram-no, deixando todo o mundo com eterna saudade do que ousou sonhar, mas pelo que jamais teve coragem de verdadeiramente lutar.